quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Lágrimas na Chuva


Ela queria, muito mais do que sua mente poderia resistir. Não sabia mais o que fazer. Era necessário criar mecanismos de defesa para proteger-se. Quando tudo começou ela deixou fluir seus instintos inicialmente, mas sem saber até onde tudo isso poderia chegar. Jamais imaginou que as coisas evoluiriam tão rapidamente. Era fora da sua compreensão e controle. Ela precisava de alguma forma convencer a si própria que o correto seria deixar tudo como estava antes de me conhecer, preservando a integridade do seu mundo, leve, suave, em equilíbrio.

Tudo aquilo era para ela como um furacão que invadiu seu habitat, impiedosamente, chaqualhando seu mundo, fazendo disparar seu coração e tocando sua alma. A força era tão intensa e devastadora que ela tinha de algum modo que tentar esconder-se antes que fosse tarde demais, pelo menos para ter um pouco mais de tempo para pensar, na esperança do vento perder sua força e tudo voltar a ser como antes. No fundo ela sabia que por mais que quisesse, por mais que tentasse, se dependesse apenas dela mesma não conseguiria fugir por muito tempo. Sua redoma de cristal já estava rachada e jamais seria colada de volta.

Começou a chuver. A água da chuva misturada com a do mar ia encharcando os nossos corpos, mas com todo aquele calor em nossos corações não sentiamos frio. De repente, do nada, no meio da luta dela contra ela mesma, com os olhos vermelhos cheios de lágrimas, fixados nos meus, segurou o meu rosto com carinho, aproximou sua boca da minha, e me deu um longo e terno beijo. Logo em seguida foi largando minhas mãos, mas ainda as apertando, me deu um forte abraço, aproximou sua boca de meu ouvido e falou baixinho: "Eu não posso...".  E começou a afastar-se. Fiquei parado, olhando-a, mas não disse uma só palavra. Ela lentamente afastou-se, afastou-se, lá de longe ainda olhou para trás para me ver pela última vez, e partiu...

Fiquei alí estático, sem ação, com os olhos cheios d'água, as lágrimas pingando pelo rosto, misturadas com a chuva. Permaneci assim por horas, naquela mesma posição, olhando para o mar. Eu não precisava de maiores explicações para tudo isso. Para mim estava mais do que claro, dado que seu coração já estava todo aberto para mim, não havia nada que ela pudesse esconder. Tinha certeza do inexplicável amor que ela sentia por mim, assim como seu medo absoluto de entregar-se e ver seu mundo ruir. Eu a entendia, embora não concordasse, mas a respeitava. No fundo eu tinha a certeza que amanhã seria outro dia, e que a nossa história não terminaria assim. Nossas almas já estavam juntas, e elas não permitiriam que nada nos afastasse, mesmo que o racional dissesse o contrário.

Meu coração não parava de bater forte, sabendo que mesmo naqueles momentos ela continuava com sua mente cem por cento focada em mim, desesperada por dentro com medo de me perder, mas achando que estava fazendo a coisa certa.

Desci a trilha de volta, me afastando do mar, das pedras. Com a chuva e frio castigando o meu corpo segui todo o longo caminho de volta, sozinho, na direção de onde havia parado o carro.

A praia estava deserta, e chovendo muito forte. Entrei no carro, coloquei a música do u2 - "With or Without You" e comecei a acelerar, lembrando de tudo que passei em um curtíssimo espaço de tempo. Foi tudo bom demais. A adrenalina começou a gelar minhas mãos. Só sentia meu coração batendo, quase saindo pela boca. Acelerei mais, e mais, e mais, 150, 180, 200... Ainda era pouco, 220, 230... No meio da chuva tudo passava tão rapido que mal dava pra ver. Mas eu precisava prosseguir, e voar cada vez mais alto. Depois de toda aquela catarse comecei a desacelerar, até parar o carro.

Naquele ponto a chuva já havia passado, e ainda restavam ali alguns timidos raios de sol. Já era um novo o fim de tarde. Estacionei, e saí do carro para absorver um pouco desse calor, sentando-me à beira do mar, observando o horizonte, o crepúsculo, o por do sol. E lá fiquei até a noite chegar, a lua, e as estrelas...

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